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BA – ALIENAÇÃO PARENTAL COMO SINTOMA SOCIAL

ALIENAÇÃO PARENTAL COMO SINTOMA SOCIAL

Dr. Cláudio CArvalho - Dir. da ABCF-BA

Dr. Cláudio CArvalho – Dir. da ABCF-BA

A invenção da psicanálise por Sigmund Freud foi possível graças à coragem desse neurologista vienense em profanar a ordem médica. Ao admitir a cura pela palavra, Freud concebia um novo estatuto para o sintoma ao desvinculá-lo de uma causa orgânica, ligando o sintoma à fala e ao discurso do paciente. O psicanalista acolhe o sintoma como uma forma de dizer que não comunica, mas se coloca, para terapeuta e paciente, como um enigma a ser decifrado – para o médico o sintoma é um sinal que indica e pede uma resposta.

Com isso, abrem-se duas possibilidades aos psis: 1) acompanhar a coragem freudiana e admitir com o mestre “não existir uma separação entre psicologia individual e coletiva, porque toda psicologia é social” (Freud, 1912) – neste sentido, o sintoma é sempre social; 2) continuar gravitando em torno da ordem médica, como parasitas a se servir das sobras de um saber que serve ao médico, mas que ao terapeuta são as migalhas da ortopedia subjetiva e dos comportamentos adaptativos.

Há seis anos foi sancionada a Lei 12.318/2010 que versa sobre alienação parental, essa prática de falar mal e dificultar a convivência com o objetivo de afastar pais e filhos. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), calcula-se em 16 milhões o número de crianças e adolescentes vítimas da alienação parental. Ainda segundo o CNJ, essa prática é instituída em 80% dos casos por quem detém a guarda unilateral – no caso as mães.

Apesar da lei e do reconhecimento da relevância do tema por parte do judiciário, por que os processos se arrastam nas varas de família? Penso a alienação parental como um sintoma social. Não por ser “socializado” por um número elevado de vítimas, a quantidade não qualifica um sintoma. Mas por colocar o enigma da omissão e covardia dos adultos (alienadores e autoridades) ao permitir a disseminação do mal-dito.

Texto publicado no jornal A Tarde, em 29 de agosto de 2016, Salvador-Ba

Claudio Carvalho – Psicanalista, analista-membro da Associação de Psicanálise da Bahia-APBa, diretor-representante da Associação Brasileira Criança Feliz – ABCF (seção Bahia), articulista-colaborador de A Tarde e autor do livro O Educador e o psicanalista: um diálogo do cotidiano.

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