RJ - Um presente para meu filho
Adriana Barros
Procuro em minhas lembranças, as vezes em que me deparei com essa dúvida: que presente dar ao meu filho?
O saldo vermelho, deixado pelas despesas inúmeras, fossem com a pensão alimentícia, com as despesas de viagem para visitá-lo, fosse com a manutenção da minha própria casa, onde me esmerava para manter e poder recebê-lo, me impediam de comprar um presente inesquecível.
Pensei então em presenteá-lo com o meu tempo e fazermos algo juntos. Deparei-me com a limitação dos dias de visita estabelecidos judicialmente e que nos distanciavam a cada dia.
O que lhe seria interessante agora, eu já não sabia, posto que em nossos encontros, poucas palavras eu ouvia dele. Não sabia o que sentia ou sequer o que queria realmente, porque às minhas perguntas ele sempre respondia “tanto faz”.
Um vazio gelado havia se estabelecido entre nós, promovidos pela alienação parental que crescia a cada dia.
Mas eu ansiava presentear meu filho com algo que ele jamais esquecesse. Algo que pudesse lhe fazer companhia quando juntos não estivéssemos. Algo que o protegesse dos perigos, que o acalentasse nos momentos de tristeza e que também fizesse parte dos seus momentos de alegria.
Foi então que decidi dar ao meu filho, algo que Deus me deu.
Dei ao meu filho meus olhos e passei a enxergar sua alma, estabelecendo com ele uma cumplicidade de olhar.
Dei ao meu filho meus ouvidos e passeia a escutar seus anseios, seus medos e sua alegria.
ei ao meu filho minha boca, deixando sair dela, palavras de encorajamento, conforto, carinho e muito amor.
Dei ao meu filho o toque das minhas mãos, deixando registrado nele, o meu cheiro e o meu calor, para permanecerem em sua memória em momentos de saudade ou de aflição.
Dei ao meu filho meu nariz, que me fizeram sentir quando algo não ia bem e ele precisava de ajuda.
Dei-me ao meu filho, usando todos os meus sentidos para estabelecer com ele uma relação de verdadeiro amor.
Foi assim, que pela primeira vez, depois de oito anos, andei pelas ruas da cidade onde meu filho mora, abraçada por ele, que já adolescente, ainda não tinha tido a coragem de mostrar sua mãe em público sem medo de ser feliz.
Foi assim, que acariciei meu filho, deitado ao meu lado, até que ele dormisse, relembrando o tempo em que muitas vezes eu o fizera dormir em meu colo.
Foi assim, que recebi um beijo não esperado, um abraço caloroso, um sorriso animador.
O presente que dei ao meu filho, fui eu quem recebi!
Autoria:
Associada Adriana Barros
Educadora
Assistente Social
Autora do Blog “Acesso Negado”
Mãe
Rio de Janeiro - RJ









