RS – Danos psicológicos causados pela alienação parental geram preocupação

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Danos psicológicos causados pela alienação parental geram preocupação

Com 19 casos de alienação parental em tratamento no Creas do município, a preocupação dos profissionais responsáveis é com a violência psicológica que a alienação parental causa nas crianças e nos adolescentes

28/03/2019 – 9h57min

PorIsabella Westphalen

Com 19 casos de alienação parental em atendimento no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) de Carazinho, a situação é preocupante, segundo a assistente social coordenadora do Centro, Franciele Bohrer, afinal, os casos têm aumentado. “Eles ficam muito tempo em atendimento, porque é algo que demanda a resposta dos pais, para depois conseguirmos trabalhar o resto”, relatou Franciele, que complementa que as complicações acontecem também pois os pais, muitas vezes, não se percebem enquanto alienadores.

O cuidado com a saúde mental das pessoas é um tema que está cada vez mais em pauta na sociedade, tendo em vista a grande quantidade de casos de depressão, ansiedade, pânico, entre outros. A alienação parental, segundo o juiz Bruno Massing de Oliveira, é a destruição ou desmoralização da imagem de um dos genitores, feita pelo outro genitor para o filho comum do casal, acarretando problemas psicológicos para esta criança ou adolescente envolvido. “Ou seja, é uma lavagem cerebral, o genitor inventa maliciosamente fatos não-verdadeiros para denegrir para o filho a imagem do outro genitor”, relata Oliveira, da Vara da Infância e Juventude, que também vê o aumento de casos com preocupação, afinal, cria na mente da criança/adolescente uma falsa memória, fazendo com que cresça em uma ilusão, alimentando uma inverdade.

Para lidar com os casos que são acionados no judiciário, e também no Conselho Tutelar, o Creas é responsável por realizar um tratamento com os responsáveis e as crianças envolvidos no caso, porém, uma das maiores dificuldades – que prejudicam todo o processo de tratamento – é que os pais não se percebem enquanto alienadores de seus filhos, não entendem que estão alienando. “O que eu quero dizer aqui é no sentido de prevenir essa situação, esse extremo. Que os pais se olhem e entendam os transtornos que podem gerar em seus filhos”, afirmou Franciele.

Alienação parental é quando se transforma os filhos em objetos

Segundo a assistente social, a alienação acontece quando os responsáveis tornam seus filhos objetos, com o objetivo de afetar o outro genitor, promovendo uma ruptura afetiva e rompendo este vínculo. “Tudo isso gera um clima de ansiedade, medo, raiva, fragilização emocional. É uma desestruturação enorme, essa criança tem que ser preservada. Eles têm que entender que deixam de ser um casal, mas nunca deixam de ser pais. Se tiverem essa consciência muda muito”, complementou Franciele.

Nos 19 casos que estão em tratamento, a faixa etária das crianças envolvidas é de 7 a 11 anos. De acordo com a coordenadora do Creas, geralmente esse é um problema que pode circular em qualquer família, porém, a maioria dos casos envolve pessoas de classe média. “Essa criança fica órfã de pai ou mãe, que não deveria ser. Se nada for feito em relação à alienação parental, o erro pode ser notado apenas na vida adulta e as consequências são horríveis porque a convivência com o genitor da qual foi privada, não retorna mais”, comentou Oliveira, que acredita que alienar um filho é uma forma de abuso praticada contra a criança/adolescente, colocando em risco sua saúde.

“Pode-se ter uma pessoa revoltada, com depressão e agressiva, tanto com ela mesma quanto com os demais. Por isso é tão importante que os órgãos de proteção estejam atentos à alienação parental, visando garantir o sadio desenvolvimento da criança/adolescente”

Bruno Massing Oliveira

juiz de Direito

Sobre os casos que atendem, Franciele afirma que tamanha é a gravidade da alienação parental que vínculos estão sendo construídos do zero. “Isso é um desvio perverso da função materna e paterna. A dificuldade maior está em entender a diferença entre casal afetivo e casal de pais, porque o relacionamento termina, mas a criança está ali, no meio dessa guerra”, relatou a assistente social, que trabalha há sete anos no Creas e afirma o aumento de casos e a gravidade a que chegam. “A gente trabalha no sentido que eles percebam o mal que estão fazendo para esse filho, os problemas graves que pode gerar no futuro”, frisou a assistente social.

Vínculo

Uma palavra bastante usada por Franciele para explicar a situação da alienação parental é “vínculo”. Afinal, acredita que, quando os genitores se dão conta do vínculo eterno que têm, por conta daquele filho, o tratamento acontece melhor. “O que a gente trabalha na prevenção é o vínculo. Isso é muito importante. A gente deixa de ser marido e mulher, acontece, mas o vínculo familiar se mantém para a vida, são responsáveis por essa outra pessoa, esse filho”, explicou a coordenadora, que trabalha para que cada vez mais famílias não precisem passar por isso.

O tratamento dado às crianças que sofrem com a alienação parental é através de um atendimento psicossocial no Creas, no sentido de fortalecê-los, mostrando a importância que eles têm na família. “Falamos sobre harmonia, que eles são muito importantes. Com os adolescentes é mais tranquilo, verbalizam mais isso, mas nossa ideia é fortalecer cada um deles para superar essa situação”, afirmou Franciele, que enfatiza também para o atendimento aos pais, peças-chave para um desfecho ideal.

“Os jovens de hoje são os pais de amanhã. Precisamos trabalhar uma geração mais saudável mentalmente. Temos que prevenir isso e evitar que reproduzam essa situação futuramente”

Franciele Bohrer

assistente social coordenadora do Creas

Para a assistente social, é primordial que os pais que estão alienando percebam que se trata de uma violência, que pode repercutir em patologias, depressão, ansiedade, pânico e outros transtornos. “Nosso desejo é que estes responsáveis olhem mais pelos filhos e não para as questões pessoais. Se percebam enquanto pai e mãe, é este o cuidado. Pai e mãe são para sempre. Não deixem que a questão do relacionamento afetivo interfira no laço familiar”, enfatizou Franciele.

Parceria e ideia para o futuro

Segundo Franciele e Oliveira, a parceria entre o judiciário e o Creas tem dado certo ao tratar estes casos, porém, tendo em vista a crescente de casos, a assistente social pensou em uma outra estratégia, que ainda vai apresentar aos colegas do judiciário. “Estamos construindo um fluxograma para atendimento às crianças vítimas de alienação parental”, relatou a assistente social.

– O poder judiciário aplica a lei e o Creas faz a parte no sentido de atendimento e superação da violência psicológica. Quero propor que, quando os pais vêm para cá, trabalhem primeiro individualmente e depois em grupos, com círculos restaurativos, isso é algo bem interessante – explicou Franciele, que pretende apresentar a proposta aos colegas do judiciário em breve, como forma de otimizar o trabalho e buscar a prevenção.

A ideia, segundo a coordenadora, é colocar os genitores juntos, frente à frente para trabalhar, quase como uma mediação, trabalhando o conflito na busca de saná-lo. “Queremos fazer isso para que se olhem como pai e mãe, não ex-marido e ex-mulher. Isso faz toda a diferença”, afirmou a assistente social, relatando que a ideia surgiu a partir da preocupação com tantos casos complicados que receberam nos últimos tempos.

Para Oliveira, a parceria com o Creas está funcionando muito bem, tem auxiliado o juízo no atendimento das crianças e adolescentes que estão nesta situação de risco por conta da alienação parental. “O Creas possibilita ao juízo atendimento psicológico, atendimento social e até encaminhamento para atendimento médico para auxiliar a criança ou adolescente a superar ou minimizar as consequências da alienação parental”, frisou o juiz.

O que diz a lei

Oliveira explica que a lei 12318/2010 prevê alguns instrumentos processuais para inibir a alienação parental, como: advertência do alienador, imposição de multa ao alienador, ampliar a convivência familiar do filho em favor do genitor alienado, imposição de acompanhamento psicológico e estudo social das partes envolvidas, alteração da guarda para compartilhada ou inversão da guarda em favor do genitor alienado e/ou declarar a suspensão do poder familiar do genitor alienador.

Se constatados elementos que provem a alienação parental, o Ministério Público ou a parte prejudicada podem postular algumas das medidas relacionadas acima ao juiz. “Além das medidas processuais acima, o genitor alienador também pode responder civilmente ou criminalmente”, finalizou o magistrado.
Transcrição.
Fonte:
https://diariodamanha.com/noticias/danos-psicologicos-causados-pela-alienacao-parental-geram-preocupacao/